estado da arte

Português não deve perder espaço

November 24th, 2006

Mais um comentário tirado de jornais, dessa vez da Folha de São Paulo, caderno de economia.
Ganha um brinde imaginário quem descobrir qual palavra poderia ser substituída por um equivalente em português:

“A grande vantagem, segundo Jansen, é a expertise que as duas empresas adquiriram nesses anos no varejo”.

Segundo o dicionário expertise é the skill of an expert, expert opinion or commentary. É uma palavra realmente difícil de se traduzir, mas experiência se adequava bem ao contexto.

Um dos significados de experiência, segundo o Houaiss é: forma de conhecimento específico, ou de perícia, que, adquirida por meio de aprendizado sistemático, se aprimora com o correr do tempo; prática.

Pescando palavras

November 22nd, 2006

Leitura é arma obrigatória de todo tradutor. Pode ser pocket book, revista especializada, jornal. O importante é estar atento. A Lia Wyler, tradutora da série Harry Potter, sugere passeios em ambientes sociais diferentes para você pescar minúcias de vocabulário e não colocar um surfista falando como um economista naquela romance policial. Enquanto não dá para ir à praia, fica um trecho do jornal o Globo de hoje, coluna da Míriam Leitão - Proposta de aço.

“A due diligence - ou seja, a auditoria - que antecede a proposta formal começou ontem, e a CSN terá que correr bastante porque a Corus terá uma assembléia extraordinário para avaliar a proposta de compra da Tata Steel”.

Só para distrair

July 12th, 2006

Citando Javier Marías em Amanhã, na batalha, pensa em mim:

“Deixe eu falar com ele para dar boa noite. Está muito aceso e se falar com você vai ficar ainda mais excitado e não vai haver quem o consiga fazer dormir (…) Tudo aquilo era absurdo do meu ponto de vista, porque o menino, de quase dois anos, segundo a mãe, falava de maneira rudimentar e apenas inteligível, e Marta tinha de decifrá-lo e traduzi-lo, as mães como primeiras decifradoras e tradutoras do mundo, que interpretam e depois formulam o que nem sequer é língua (…)”

Tradução por todo lado. :-)

Nelson Demille diretamente da Plum Island

June 26th, 2006

Mais uma diretamente do livro bioterrorista do Nelson Demille :-) , dessa vez falando de coisas miúdas, de odds and ends. Demille adora fazer brincadeiras fonéticas, mesmo quando a soma das palavras não gera um significado diferente das palavras sozinhas. Quando ele consegue as duas coisas é um prato cheio, mas difícil de traduzir, pois perde parte da graça. Odds separado pode ser chances, probabilidades. No singular, também aparece como estranho, diferente ou irregular. Ends, plural de end que pode ser um objetivo, finalidade, ou o final de alguma coisa. Juntos, adqüirem um significado totalmente odd: miudezas; coisas avulsas; quinquilharia.

Esse tipo de dueto também foi utilizado recentemente em um jogo de cartas colecionáveis chamado Magic: the gathering. Em edições recentes, os designers precisaram escolher nomes para cartas que representavam duas palavras normalmente associadas, cada uma dando nome a uma magia. Para ficar na literatura, outra dupla que usaram foi Crime and Punishment, um clássico bem aproveitado por Woody Allen em Match Point. Lembro ainda de outras como Hit and Run, Battery and Assault e Research and Development (essa velha conhecida das nossas traduções). O próprio Odds and Ends entrou no jogo (literalmente): odds era uma magia que ressurgia criaturas do cemitério (algo certamente estranho, há de convir), e ends dava o golpe final em duas criaturas do seu oponente.

The end :)

Sal e Pimenta

June 13th, 2006

Existe um livro sobre expressões idiomáticas e convencionais em inglês e português chamado “o jeito que a gente diz”. Um dos tópicos do livro trata da ordem das palavras. Um casal briga feito cão e gato, nunca feito gato e cão, mas briga como gato e cachorro e não como cachorro e gato. Como saber isso? Lendo.

Outro exemplo do livro refere-se à expressão salt and pepper. Quando aparece nessa ordem, segundo a autora, designa o conjunto de saleiro e pimenteiro (você tem um pimenteiro em casa?). Estamos falando de sal e de pimenta. Como nem sal eu ponho na comida, isso é um exemplo teórico :) Seguindo com o raciocínio, quando você inverte para pepper and salt deixa de se referir ao tempero e passa a designar um tecido de fios claros e escuros entrelaçados. Salt não é mais sal e pepper não é mais a nossa pimenta do reino ou black pepper.

Completando o exemplo que Stella E.O. Tagnin dá no livro, cito Plum Island de Nelson DeMille.

Contrariando a lógica das ordens, DeMille usa salt and pepper para falar da cor do cabelo de um agente do FBI. Um homem com salt and pepper hair, ou seja, fios brancos e pretos misturados, cabelo grisalho. Logo, nada de achar que o pessoal do FBI anda temperado por aí, estamos combinados?

Vocabulário made in New York

May 18th, 2006

Semana passada saiu uma reportagem curiosa no New York Times falando de uma tribo indígena da Colômbia que nunca tinha estado na civilização e que, do nada, resolveu deixar a floresta Amazônica. Os índios decidiram que estavam preparados para viver próximo à cidade e que não agüentavam mais os mosquitos. Bem, não disseram a parte dos mosquitos, mas eu não duvido. O bom mesmo é que alguns trechos trazem palavras interessantes para espiarmos.

1.
“SAN JOSÉ DEL GUAVIARE, Colombia — Since time immemorial the Nukak-Makú have lived a Stone Age life, roaming across hundreds of miles of isolated and pristine Amazon jungle, killing monkeys with blowguns and scouring the forest floor for berries”.

Se você já tirou a carga da caneta bic e assoprou bolinhas de papel nos seus amigos sabe o que significa blowgun. O que literalmente seria uma “arma de sopro” é a famosa zarabatana usada pelos indígenas para caçar pequenos animais. Fácil, não? Se o seu vizinho está aprendendo a tocar flauta, você pode ter outro significado para arma de sopro, mas não é esse o contexto. :)

2.
“But recently, and rather mysteriously, a group of nearly 80 wandered out of the wilderness, half-naked, a gaggle of children and pet monkeys in tow, and declared themselves ready to join the modern world”.

O verbo wander passa a idéia de que a tribo não tem um rumo. Estão vagueando, perambulando, saindo de um lugar sem saber onde vão chegar. Foi muito bem empregado, pois abordou a ação e o estado psicológico dos índios.

3.
Half-naked é literalmente seminu, assim mesmo, sem hífen e sem acento. O dicionário Houaiss indica que além de “parcialmente vestido” o seminu pode ser alguém “maltrapilho, esfarrapado“.
“One of perhaps a few dozen indigenous communities living in relative seclusion in the Amazon basin, the Nukak have, in dribs and drabs, gone beyond the borders of their jungle world only since 1988, just as the world has intermittently found them”.

Para fechar, a expressão dribs and drabs. O jornal conta que a tribo Nukah começou esse descobrimento às avessas em 1988 e “devagar, devagarinho” exploraram as fronteiras do seu mundo. Se você ainda não captou a mensagem ou prefere um significado mais formal para dribs and drabs, “aos poucos” ou “gradualmente” são opções que podem ajudar.
fonte da reportagem: New York Times.

Um estranho em Goa

April 14th, 2006

Já dizia o diretor Jorge Duran “as idéias estão no éter”. Esticando o dito: e o conhecimento está onde você puder alcançar.

Peguei emprestado com a escritora Elvira Vigna um livro chamado “Um estranho em Goa”, de José Eduardo Agualusa. Ele é um bom escritor angolano que já morou aqui no Rio de Janeiro, em Lisboa e Berlim, e tem pelo menos nove livros publicados.

Encontrei dois momentos curiosos, uma referência à origem da palavra e uma brincadeira com significados, que decidi passar para cá.

O primeiro fala da origem da palavra cavanhaque. Achei válido pois associei diretamente às origens de sadismo e masoquismo. Ou seja palavras que surgem do nome de alguém, de um nome próprio, que ganham significado devido a um hábito ou característica forte e marcante daquela pessoa.

No caso de cavanhaque, cá está:

” - Podes tentar desenhá-lo agora sem essas barbas? Só com o bigode e o cavanhaque, um pouco no estilo de Lenine…

- Ao estilo de Cavaignac, queres tu dizer, meu lindo. Louis Eugène Cavaignac, um general francês do século XIX que usava a barba assim aparada”.

A seguinte serve como exemplo da diferença de interpretação de uma mesma pergunta em diferentes lugares, lembrando que o todo de uma frase sempre é maior do que o significado unitário das palavras.Veja só:
“Sal disse-me que é de Loutolim. Perguntei-lhe então se toda a família nascera nessa aldeia. “Não”, respondeu impávido. “Eu nasci em Pangim“. levei alguns minutos a perceber que em Goa quando se pergunta a alguém, “where are you from?“, a pessoa não indica o lugar onde nasceu, e sim a aldeia de onde a família é originária.

Gírias Mudando Significados

April 12th, 2006

Certamente você já ouviu falar de Stephen King, autor de livros consagrados como Carrie, Cemitério Maldito, Louca Obsessão, A Hora da Zona Morta, Eclipse Total, À Espera de um Milagre e dos contos Conta Comigo, O Aprendiz, Um Sonho de Liberdade, Jardim Secreto e o Sobrevivente, todos adaptados para o cinema.

Um de seus maiores sucessos, o livro O Iluminado, guarda uma curiosidade lingüística que pouca gente conhece, mas que serve como bom exemplo de sutilezas.

Quando entregou o manuscrito ao editor, o título sugerido por King foi “Shine” que nos dicionários aparece como luz, brilho, polimento, brilhar, luzir e variantes. Uma breve pesquisa de mercado apontou forte rejeição ao título e a editora solicitou outro nome a Stephen King, ficando então “Shining” como o conhecemos hoje.
Você consegue entender o motivo dos protestos contra “Shine“?

Stephen King conta que na época do lançamento, shine vinha sendo usado nos Estados Unidos como gíria pejorativa para a raça negra, pelo sentido de “refletir luz“, “ser brilhante“. Obviamente, nem o próprio King sabia dessa, mas ao ser avisado pelo editor, mudou logo de opção.